O GENEROSO (E QUASE DESCONHECIDO) VINHO DE CARCAVELOS

Vinhos licorosos há muitos em Portugal, desde a jeropiga ao abafado, mas Vinhos Licorosos de Qualidade, Produzidos em Região Determinada (VLQPRD) e Denominação de Origem Controlada (DOC), existe apenas uma pequena elite. É bem conhecida e reconhecida a nível nacional e internacional, e com peso respeitável na balança de exportações vinícolas. Falamos, claro, dos vinhos do Porto, da Madeira e do Moscatel de Setúbal. No entanto, desta pequena elite faz ainda parte o secular mas menos conhecido Vinho de Carcavelos. Já conhecia?

Um terroir influenciado pela maresia

O Casal da Manteiga, na Quinta Marquês de Pombal, em Oeiras, é o atual centro nevrálgico da produção do vinho de Carcavelos. Situa-se num ponto alto, de onde escorrem as vinhas, em carreiras alinhadas ao longo de um quilómetro a perder de vista. O anfitrião da equipa do Feiras de Sabores é Alexandre Eurico Lisboa, arquiteto paisagista há longos anos ao serviço da Câmara Municipal de Oeiras, e Coordenador do Projeto da Vinha e do Vinho. Explica-nos que, aqui, o vento é uma constante, mas apenas durante o dia, correndo de Sintra em direção ao mar. Um elemento muito importante, pois «é uma das questões que define o terroir do vinho de Carcavelos. Outra é a questão do solo, estamos em solos argilo-calcários, de fundo marinho, numa pequena concha que vai desde Paço de Arcos quase até ao Guincho.»
O vento, os solos e as suaves encostas onde a vinha está instalada proporcionam uma estreita ligação com o mar: durante o dia, o solo aquece, mas à noite há uma inversão térmica, com a humidade do oceano a chegar aqui, recuando novamente quando chega a manhã. A humidade que vem do mar é significativa, e traz consigo o sal e outros elementos que são assimilados pelas plantas. Em suma, conclui Alexandre Eurico Lisboa, «estes parâmetros todos de que falei, associados às castas, dão-nos o perfil da unicidade que este vinho tem». As castas principais do vinho de Carcavelos são arinto, galego dourado e ratinho. Castas que se conjugam no Carcavelos e em vinho branco, a par do castelão e trincadeira para o tinto.

Uma tradição salva pela autarquia

Há dois milénios que existe produção de vinho nesta região, mas no século XX as vinhas começaram literalmente a perder terreno para a construção imobiliária, muito mais rentável, e as quintas de produção vinícola têm vindo a desaparecer.
Quando, no final dos anos 80, a Câmara de Oeiras se associou ao Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV), que detinha esta área, e começou a tomar a seu cargo a recuperação da tradição vínica do Carcavelos, e das estruturas ancestrais da quinta do Marquês de Pombal, ainda existiam algumas quintas que o produziam. No entanto, hoje o projeto dinamizado pela autarquia é o único a fazê-lo, com a marca Villa Oeiras.

“De acordo com o plano da autarquia de Oeiras, o futuro do Carcavelos deverá passar por expandir a área de vinha e duplicar a produção, manter a investigação que aqui é feita pelo INIAV, tornar o vinho sustentável do ponto de vista económico e ainda cativar produtores privados….”

Um vinho cheio de história

O vinho de Carcavelos foi reconhecido por Carta de Lei em 18 de setembro de 1908, e aí ficou definida a sua região demarcada, atualmente a mais pequena do país. Esta região era, por definição, «formada pelas freguesias de S. Domingos de Rana e Carcavelos, do concelho de Cascais, e pela parte da freguesia de Oeiras que é tradicionalmente reconhecida por produzir vinho generoso».
No entanto, muito antes, ainda no século XIV, documentos régios já se referiam aos «bem cuidados vinhedos de Oeyras». Nos séculos que se seguiram, o vinho chegou a ser uma das atividades económicas mais importantes desta região, mas foi com o Marquês de Pombal, no século XVIII, que a produção vinícola foi refinada e ampliada. Na sua quinta de Oeiras, onde a produção agrícola era vasta e diversificada, desde a fruta aos cereais, passando pelo azeite e até pela seda, o vinho licoroso de Carcavelos ganhou expressão internacional: chegou a ser escolhido pelo rei D. José para presentear o imperador da China, e até o terceiro Presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson, o consumia
No início do século XVIII, a produção chegou a atingir as 3000 pipas, exportadas sobretudo para Inglaterra, América do Norte, Índia e Austrália. Mais tarde, em 1939, havia cerca de 20 quintas a produzirem vinho de Carcavelos em cerca de 200 hectares de terreno. Hoje, a produção restringe-se a apenas estes 12 hectares que avistamos, e que resultam em 50 mil litros anuais. Envelhecem depois nas instalações do Casal da Manteiga e mais abaixo na propriedade, na imponente Adega do Marquês de Pombal, onde também existe uma loja aberta ao público.

Já diz o ditado: «quem tem bom vinho tem bons amigos»

Foi a amizade pelo vinho, e um grande amor a este património ancestral, que deram origem à Confraria dos Enófilos da Confraria do Vinho de Carcavelos, a 15 de abril de 2009. O seu primeiro Grão-Mestre foi o Presidente da Câmara que abraçou e continua a impulsionar a recuperação da produção vinícola e da Quinta Marquês de Pombal, Isaltino Morais.
Hoje a Confraria reúne uma centena de confrades com um objetivo comum, que o chanceler Manuel Machado partilha: «o nosso desafio é levar ao conhecimento de todos que o Vinho de Carcavelos, não obstante as ameaças externas sentidas, e nas quais se destacam a pressão urbanística em terrenos integrados na Região Demarcada do Vinho de Carcavelos, já não é apenas aquele vinho que se bebia na missa ou do qual havia uma garrafa esquecida em casa dos avós. Dentro em pouco queremos que esteja em casa de todos os seus apreciadores.»
Um objetivo meritório, afinal o Carcavelos é um vinho de características únicas. As castas que o compõem aliam-se num néctar cor de mel, fortificado em parte com a nobre aguardente da Lourinhã, e com estágio mínimo de dois anos em vasilhame de madeira e de seis meses em garrafa. O mais raro dos vinhos generosos portugueses está então pronto a consumir, seja como aperitivo ou após a refeição. O chanceler da Confraria, Manuel Machado, define-o como «um vinho extraordinário, não apenas pela sua qualidade mas também pelo que representa em termos de história e de património.»
O propósito da Confraria do Vinho de Carcavelos é divulgar e preservar este património, e tem tido, conforme realça Manuel Machado, «uma grande quota-parte de responsabilidade em tudo o que diz respeito à divulgação do “Carcavelos” e à sua notoriedade. A Confraria dos Enófilos do Vinho de Carcavelos tem desenvolvido e participado em inúmeras acções de promoção, designadamente na organização de concursos vinícolas e de provas de vinhos, algumas delas levadas a cabo na “wineshop” que gere no centro histórico da vila de Oeiras.»

Um património ameaçado pelo urbanismo

Num meio hoje marcadamente urbanizado, o vinho de Carcavelos tem sobrevivido graças ao empenho da autarquia de Oeiras, que tem investido na sua produção e preservação, na antiga Quinta de Cima, do Marquês de Pombal, numa parceria com o INIAV. Fiel à sua dama, a autarquia anuncia-o como «O generoso que deveria existir em todas as casas onde existe um oeirense».
Oeiras acabou por tornar-se a primeira autarquia do país a assumir produção vinícola porque, sobretudo na segunda metade do século XX, esta zona nobre nos arredores da capital viu-se drasticamente reduzida devido à especulação imobiliária. No entanto, uma parte da região demarcada já está protegida pelos Planos Diretores Municipais de Oeiras e de Cascais, para assegurar o futuro do Vinho de Carcavelos. Conforme explica Alexandre Eurico Lisboa, «o PDM de Cascais prevê uma área de 200 hectares para a vinha, e aí os projetos estão condicionados a projetos vínicos. Aqui, esta quinta é classificada como património histórico, por isso também está protegida, e nós temos na região toda cerca de 300 hectares de espaço já protegido que nos permite perceber o potencial de crescimento futuro, salvaguardado da questão imobiliária.»

Plano para o futuro: recuperar a memória vínica

De acordo com o plano da autarquia de Oeiras, o futuro do Carcavelos deverá passar por expandir a área de vinha e duplicar a produção, manter a investigação que aqui é feita pelo INIAV, tornar o vinho sustentável do ponto de vista económico e ainda cativar produtores privados. E os primeiros passos já estão a ser dados: nesta altura, a Quinta da Samarra está a reiniciar a produção de Carcavelos pela mão do chef e produtor vinícola Vítor Claro, com o apoio do projeto camarário.
Um pequeno passo no caminho traçado, que o Coordenador do projeto sumariza numa frase: «A nossa geração perdeu a memória vínica da região. Hoje em dia as pessoas associam a Costa do Estoril à praia, às férias, ao casino, às discotecas, e não à vinha, e isso é uma memória que nós queremos recuperar».
O plano traçado pela autarquia é completo e minucioso, e o seu objetivo é que a região demarcada de Carcavelos volte a ser uma região vínica em pleno, produzindo, além do vinho licoroso, também o branco, o tinto e ainda aguardente. A estrutura tem capacidade para triplicar a atual produção, e os consumidores agradecem. Afinal, o Carcavelos, uma vez saboreado, não deixa ninguém indiferente. As garrafas variam entre os 15 e os 64 euros mas, depois de provarmos este licor de características únicas, podemos garantir que valem bem o investimento.

ONDE COMPRAR: 
Loja da Confraria do Vinho de Carcavelos – Rua Cândido dos Reis, nº 51, Oeiras. Segunda a sexta das 11h00 às 19h00. Sábado das 11h00 às 18h00. Loja do Palácio do Marquês de Pombal – Palácio Marquês de Pombal – De terça a sábado das 10h00 às 18h00Stand ‘Villa Oeiras’ – Centro Comercial Oeiras Parque (corredor da Fnac) Av. António Bernardo Cabral de Macedo – Das 10h00 às 23h00.

AS GUITARRAS DO MARQUÊS
Cinco luthiers de renome internacional estão nesta altura a criar guitarras com madeira de mogno, adquirida por um luthier português, Adriano Sérgio, proveniente de barricas de vinho originais da Quinta do Marquês de Pombal. Parte dessa madeira, com mais de 200 anos, que estava armazenada numa quinta de Santarém, viria a ser recuperada pela autarquia de Oeiras para reconstruir uma das barricas originais, hoje exposta na Adega do Marquês de Pombal. A restante madeira será transformada em guitarras, As Guitarras do Marquês. A iniciativa conta com o apoio da Câmara de Oeiras, e resultará num concerto a decorrer nos Jardins do Palácio, ainda durante este ano.

Em nome da preservação do Vinho de Carcavelos enquanto património secular, Oeiras tornou-se a primeira autarquia produtora de vinho do país, tendo o seu exemplo já sido seguido por Vila Franca de Xira.