VINHO DA TALHA | PRESERVAR A ALMA DO ALENTEJO

Era assim que os romanos faziam o vinho: em talhas de barro. Dois mil anos passados, o Alentejo preserva ainda esta técnica ancestral, não se deixando contagiar por métodos mais modernos. Em resultado, mantém-se uma tradição e produzem-se vinhos de características únicas.

A alma do Alentejo em Vila de Frades

A família Honrado, de Vila de Frades, na Vidigueira, conta-se entre os poucos produtores nacionais que mantêm a produção de vinho de talha. Mais do que isso, pai e filho – António e Ruben Honrado – uniram esforços e saberes e ajudaram a transformar Vila de Frades na Capital do Vinho de Talha.

O pai, António, já produzia vinho para servir no afamado restaurante típico País das Uvas, em Vila de Frades.

Mais recentemente, a visão inovadora do filho, Ruben, levou-os mais além: desde 2016 que a Honrado Vineyards ampliou a produção dos vinhos de talha, de forma artesanal, e os vinhos da marca são agora certificados e distribuídos no mercado. Ruben Honrado explica ao Feiras de Sabores que«com a criação da empresa, começamos a produzir vinho certificado DOC em vez de termos apenas vinho de mesa no restaurante. Isto permitiu-nos engarrafar vinho, rotular e vender para fora.»

De facto, em 2018 produziram cerca de 15 mil garrafas, e já há planos para exportar a marca Talha para o Brasil e Estados Unidos. «Estamos neste momento a meio do processo de exportação para estes dois países e pretendemos enviar o primeiro contentor já em 2020. Caso o vinho tenha uma boa aceitação nos mercados, esperamos conseguir expandir a exportação para o dobro em 2021.»

O produtor explica ainda que «as uvas são de vinha própria, as castas utilizadas são maioritariamente castas tradicionais do Alentejo, e o produto é um vinho genuíno, cuja técnica de produção se mantém fiel às suas origens milenares.»

O restaurante País das Uvas, gerido pela família Honrado, vale, por si só, uma visita a Vila de Frades. Afinal, há mais de 15 anos que partilha os sabores e cantares alentejanos entre as imponentes talhas de barro que decoram o espaço.

Como se isso não bastasse, a Honrado Vineyards propõe também uma visita à Adega-Museu Cella Vinaria Antiqua. Um projeto de enoturismo inovador, inaugurado em 2018. Mesmo sendo um projeto recente, Ruben Honrado conta que tem suscitado interesse internacional: «recebemos visitantes de todo o mundo, mas especialmente portugueses, do Brasil e EUA. Recebemos também grupos de séniores e de estudantes que querem aprender sobre a técnica milenar de produzir vinho artesanalmente.»

A designação em latim – Cella Vinaria Antiqua – é uma clara alusão à herança romana do vinho de talha. Traduz-se em algo como «adega de vinho antiga» e traz à contemporaneidade o saber milenar da produção de vinho em talhas de barro. Como se o conteúdo não fosse suficientemente interessante, o próprio edifício centenário que alberga a Adega-Museu surpreendeu toda a gente quando revelou, durante as obras de recuperação, ser datado do século XIII. Desde que há memória, serviu a comunidade como adega e taberna, até assumir um novo papel. Hoje transformado em adega-museu, aqui tomamos contacto com o ambiente, as técnicas e os instrumentos do método ancestral de produção vinícola. As visitas guiadas, as provas de vinho de talha e os workshops complementam uma experiência memorável para qualquer visitante.

Um processo milenar para transformar uvas em vinho

Em Portugal, alguns dos mais antigos vestígios de fabrico de vinho foram encontrados precisamente em Vila de Frades, nas ruínas romanas de São Cucufate. Este monumento, onde outrora habitou uma família romana, tem características únicas, com dois pisos, uma zona termal com três zonas de temperatura, templo e zona de bem-estar.

Nas escavações arqueológicas, foram aqui achados indícios do fabrico de vinho em talha de barro. Um método que, embora tenhamos herdado dos romanos que aqui habitaram, é, na verdade, muito anterior. O professor Virgílio Loureiro, enólogo e académico, explica que o vinho de talha «é feito em recipientes de barro, como já se fazia há oito mil anos no Cáucaso (vinho primordial). A tecnologia é arcaica, sem as obsessões da Enologia contemporânea que privilegiam a protecção do vinho contra o contacto com o ar (oxigénio).»

O processo de produção de vinho de talha é, aparentemente, simples. No entanto, exige um saber antigo, passado de geração em geração. Existem algumas variações mas, em regra, a uva é esmagada, entra nos potes já livre de engaços e é ali que fermenta e se transforma em vinho.

Enquanto decorre a fermentação inicial, durante cerca de uma semana, a «manta» que se forma à superfície deve ser remexida pelo menos duas vezes por dia. Ao mesmo tempo que se mistura o conteúdo, enriquecendo o vinho, alivia-se a pressão dentro do recipiente, evitando acidentes.

Na Honrado Vineyards, por exemplo, as uvas são vindimadas à mão, em pequenas caixas e por castas, o desengace e esmagamento das uvas é feito em moinho e a fermentação ocorre então nas talhas.

A talha é um recipiente de barro em forma de ânfora, com uma abertura mais estreita em cima. A cerca de vinte centímetros do fundo, apresenta um orifício onde se acumulam os sedimentos da uva. Esse orifício serve para retirar o líquido, já transformado em vinho, através de uma pequena torneira que ali se aplica.

Ao fim de 40 dias, conforme diz o ditado – «por altura do São Martinho, vai-se à adega e prova-se o vinho». O Prof. Virgílio Loureiro esclarece que, «em regra, é um vinho (normalmente branco) para beber no ano, tirado diretamente da talha, mas se for engarrafado com os cuidados da Enologia atual, pode durar 20 anos em garrafa com excelente qualidade.»

Uma herança a preservar

É o Alentejo que mais preserva a tradição do vinho de talha, tanto no método de produção como no fabrico das talhas de barro, em localidades como São Pedro do Corval, Vidigueira ou Campo Maior.

No entanto, esta tradição mantém-se à custa de muita persistência e contra um conjunto de adversidades. Os métodos de produção atuais, a massificação com vista ao lucro e as próprias normas de segurança alimentar têm vindo a extinguir a produção de vinho em talhas.

Conforme explica Virgílio Loureiro, «as leis de Bruxelas não foram feitas para vinhos da época romana e os burocratas que as fazem cumprir aproveitam todas as oportunidades para mostrar o seu (pequeno) poder. Uma medida absolutamente devastadora que imperou no Alentejo há poucos anos atrás “obrigava” a revestir o interior das talhas com tintas sintéticas para assegurar a eficiência da lavagem das talhas. Foi um desastre que destruiu um património inestimável e choca qualquer estrangeiro culto que visita as adegas antigas do Alentejo com talhas – algumas do século XVII – pintadas com tintas do século XXI. No Cáucaso, há seis mil anos, já se sabia que a resina ou a cera de abelhas era suficiente para conseguir o mesmo efeito e no Alentejo sempre se utilizou esta técnica.»

Entretanto, a medida de revestir as talhas a tinta sintética foi revertida. Na Honrado Vineyards, por exemplo, que assume uma produção «artesanal», as talhas são revestidas com pez e cera de abelha.

Da pré-história à atualidade

Num artigo publicado na revista Nativa, e que partilhou com o Feiras de Sabores, o professor Virgílio Loureiro aprofunda as origens do vinho de talha. Terá sido na Transcaucásia – uma região que hoje abrange a Geórgia, Arménia, Azerbaijão, Irão e parte da Anatólia – que surgiu a viticultura e o fabrico de vinho de talha.

A videira europeia (vitis vinifera), era espontânea e abundante nessa região. Inicialmente uma liana não domesticada, crescia nas copas das árvores e já produzia pequenos cachos com bagos miúdos, tintos, de sabor ácido, capaz de contrair as papilas gustativas.

Ainda antes da sedentarização e da agricultura, os caçadores recolectores consumiam-nos e preferiam os bagos maiores e mais doces. Por isso mesmo, terão protegido as videiras que os produziam, e assim se terá iniciado o processo de evolução das videiras que hoje conhecemos.

O processo de fabrico de vinho só terá sido possível com a invenção da olaria, combinada com o aprimorar da inteligência humana. Este processo foi então exportado para as grandes civilizações, rumo a ocidente, e terá chegado a Portugal trazido pelos mercadores fenícios. No entanto, foi com a paz romana na península que o cultivo da vinha e a vinificação em talha se estabeleceu como uma herança que chegou até nós.

Ou seja, terá sido ainda na pré-história que o homem criou o delicioso néctar feito de uva fermentada. Uma bebida que hoje todos apreciamos, mas cujo método original só sobrevive ininterruptamente na Geórgia, na Arménia, no sul de Espanha e, claro, no nosso Alentejo.

A aposta neste património é uma causa comum de autarquias como a Vidigueira, Cuba e Alvito. O método é reconhecido e foi incluído na Denominação de Origem Alentejo pela Comissão Vitivinícola Regional Alentejana. Mais do que isso, o fabrico de vinho em talha está em processo de candidatura a Património Imaterial da Humanidade.

Celebrar o Vinho de Talha no Alentejo

O investimento da Honrado Vineyards é um dos exemplos que mantêm viva a tradição de fabricar vinho em talhas de barro. Felizmente, não é um caso único. A par do trabalho desenvolvido por outros produtores que também apostam no vinho de talha, recentemente surgiu uma nova iniciativa que mostra bem o esforço alentejano para preservar esta tradição. A Adega Cooperativa Vidigueira, Cuba e Alvito inaugurou, em outubro passado, a Casa das Talhas, na Vidigueira. Um espaço aberto ao público, onde o vinho de talha é acarinhado e dado a conhecer aos visitantes.

A par dos espaços que promovem o vinho de Talha, são vários os eventos que assumem o mesmo objetivo. É o caso do Ânfora Day Wine, também na Vidigueira, que se realiza a 16 de novembro. É organizado pela Herdade do Rocim, e promete repetir o êxito do ano passado, que contou com 24 produtores de vinho de talha nacionais e estrangeiros, e mais de um milhar de visitantes. Sendo aberto ao público de todas as idades, os bilhetes (pagos apenas pelos adultos) podem ser adquiridos nos canais habituais. Nesta segunda edição do Ânfora Day Wine, está prevista a participação de meia centena de produtores.

Fica a sugestão do Feira de Sabores para visitar a Vidigueira já em novembro ou, se a agenda não o permitir, reserve já uma data para dezembro: entre 6 e 8 de dezembro, está prevista a 22ª edição da Vitifrades. É conhecida como «a grande festa do vinho de talha» e decorre, como o nome indica, em Vila de Frades.

Como vê, oportunidades não faltam para conhecer – ou matar saudades – de um produto português com raízes antigas, e que é candidato a Património Imaterial da Humanidade.