FRUTOS SECOS DE OUTONO | NUTRIENTES E ENERGIA PARA ENFRENTAR O FRIO

A natureza sabe o que faz e dá-nos alimentos nutritivos em todas as épocas do ano. Há que seguir o seu ritmo, e aceitar as suas preciosas ofertas, na altura certa. Chegado o outono, os frutos secos vêm dar-nos energia para enfrentar o frio, e a autarquia de Alvito, no Alentejo, torna-os protagonistas na centenária Feira dos Santos e dos Frutos Secos. Este ano, decorre entre 31 de outubro e 2 de novembro. Já marcou na sua agenda?

Bons motivos para visitar o Alvito

Se nunca visitou Alvito, no baixo Alentejo, a oportunidade ideal é no primeiro fim de semana de novembro: este ano, a centenária Feira dos Santos e dos Frutos Secos decorre no próximo fim de semana. 

Este certame que tem origem no século XVI, e continua a destacar o melhor do concelho de Alvito, e da sua vasta produção de frutos secos. Em entrevista ao Feiras de Sabores, o presidente da autarquia, António Valério, explica que a feira foi criada por alvará régio em 1579, inicialmente prevista para 25 de julho. No entanto, esta data «não foi do agrado geral, pelo que Câmara solicitou alterar para o dia 1 de novembro, com a duração de 3 dias. Desde 1579 que a Feira se realiza nesta data, primeiro na Praça, mais tarde no rossio e, desde 2009, no parque de feiras.» 

António Valério define a feira dos Santos e dos Frutos Secos como «um lugar de encontro e confluência das populações vizinhas» e também como «um tempo de festa e de encontro para alvitenses ausentes que aproveitam a data para voltar a Alvito. Os frutos secos, castanhas, nozes, amêndoas e figos tornaram-se, ao longo dos tempos, uma imagem de marca da Feira.»

O evento conta com exposições, o concurso Gastronómico ProvAlvito, uma conferência, concertos de artistas como Remember Me, Calema e ProfJam. Os adeptos do pedal podem ainda juntar-se ao raid de BTT. Como se isso não bastasse, no domingo, dia 2, durante todo o dia Alvito serve de palco à emissão em direto do programa da RTP1 «Aqui Portugal». 

Serão dias animados, como toda a certeza, em que cerca de 50 expositores dão a conhecer aos visitantes os serviços e produtos locais. Os frutos secos são, naturalmente, os reis da festa, e há quem venha de longe para os provar. De acordo com o autarca local, «afluem a Alvito alguns milhares de pessoas oriundas principalmente dos concelhos limítrofes, sendo contudo ainda hoje em dia notável a influência que a Feira exerce em regiões como Algarve e mesmo Alto Alentejo e Ribatejo. No ano passado, a Feira recebeu mais de três mil visitantes.»

Além da Feira dos Santos e dos Frutos Secos, nesta altura do ano decorre ainda em Alvito o festival gastronómico «Outono à Mesa». Entre 23 de outubro e 3 de novembro, os restaurantes aderentes servem sabores alentejanos que  valorizam os alimentos da época como a abóbora, ou mogango, as nozes, castanhas e amêndoas. Cada restaurante cria a sua ementa própria, incorporando estes ingredientes em pratos de carne, peixe ou sobremesas.

Tire partido dos frutos secos

Nozes, castanhas, amêndoas, pistacios, pinhões, cajus… Os frutos secos conservam-se ao longo de todo o ano, mas é no outono que muitos deles estão prontos para serem colhidos. É o caso da castanha ou das nozes, por exemplo. 

Sendo, em regra, ricos em calorias, não devemos abusar do seu consumo mas, ainda assim, é importante que façam parte da nossa rotina alimentar. Escusado será dizer, claro, que deve preferi-los ao natural, sem processamentos nem adição de sal ou açucar. 

Os frutos secos – estamos a falar dos oleaginosos e não dos frutos desidratados como as passas de uva ou de ameixa – são, de um modo geral, ricos em gorduras saudáveis, nomeadamente omega3 e omega6. São, por isso, essenciais ao nosso organismo e grandes aliados da nossa saúde. Contêm ainda vitaminas, fitoquímicos, fibras, hidratos de carbono, alguma proteína e minerais. 

As castanhas do Brasil, por exemplo, são uma fonte inigualável de selénio, bastando comer duas por dia para suprir a necessidade deste mineral. Os frutos secos são igualmente uma excelente fonte de energia, e por isso ideais para atletas antes dos treinos, por exemplo. 

Pelas suas características, os frutos secos beneficiam especialmente a saúde cardiovascular e o trânsito intestinal, saciam o apetite e, a par de tudo isto, o seu poder antioxidante protege as células e combate o envelhecimento. 

Como vê, são motivos mais do que suficientes para os ter sempre à mão. Guarde-os em frascos e vá debicando (sem abusar) no trabalho ou à laia de sobremesa, por exemplo, em vez de se atirar aos doces.

A nova vida da bolota

Entre os frutos secos que habitualmente consumimos, dificilmente se encontra a bolota. No entanto, aos poucos, esta realidade tem vindo a mudar.

«Bolota» é a designação genérica para os frutos de árvores do género Quercus como a azinheira (que produz a bolota mais doce), o sobreiro e o carvalho. 

Foi outrora sinónimo de alimento para os porcos mas, na última década, tem vindo a conquistar um novo estatuto. E existem boas razões para isso. 

Antes de mais, a bolota é um fruto tradicional português que encontramos desde há muito, nomeadamente, no Alentejo. Dados arqueológicos indicam que já era consumido pelos primeiros povos que habitaram a Península Ibérica, inclusive fermentado, numa espécie de cerveja.

Em segundo lugar, a ciência diz-nos que a bolota tem um elevado valor nutricional. Vale a pena referir um estudo de 2015 da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica do Porto. Foi coordenado pela investigadora Manuela Pintado, e confirmou a riqueza nutricional da bolota – e da sua farinha. O estudo comprova que a bolota é rica em fibra, proteína e tem um perfil de gorduras saudáveis equivalente ao do azeite. Os seus compostos antioxidantes protegem-nos da oxidação do ADN e, por ser isenta de glúten, é recomendada como uma boa alternativa para pessoas celíacas.

O valor da bolota tem vindo a ser reconhecido também por diferentes empresários, como uma aposta diferenciadora. É o caso de Rui Coelho, dono da residencial e pastelaria Landroal, na vila alentejana do Alandroal. Conta ao Feiras de Sabores que, quando era miúdo e guardava ovelhas nos campos, a bolota fazia parte da sua ementa habitual. Comia-a cozida ou assada, tanto em casa dos avós como no dia a dia de trabalho. E era boa. Sobretudo a da azinheira. 

Com o passar dos anos, Rui Coelho tornou-se empresário e pasteleiro, e sempre quis valorizar aquele sabor da sua infância. Tentou fazer farinha de bolota com pouco êxito, depois desafiou uma empresa de Marvão a moê-la e foi assim, há seis anos, que começou a fazer as primeiras experiências de doçaria. Experimentou pontos de açúcar, tempos de fervura, texturas e consistências. O seu maior desejo era criar um pastel de nata de bolota. Não foi fácil mas, depois de muitas tentativas e erros, conseguiu. 

Hoje em dia, a pastelaria Landroal tem como especialidades o pastel de nata de bolota e as delícias de bolota. E o proprietário garante: «Tivemos uma boa aceitação por parte do público, que ainda se mantém até ao dia de hoje.» Ainda assim, admite que continua a existir algum preconceito com este fruto seco, que para muita gente ainda não deixou de ser um mero alimento para os animais. 

Felizmente, nem todos pensam assim, e a pastelaria Landroal não é, de modo nenhum, caso único no aproveitamento da bolota. Na sua busca por farinha de bolota de qualidade, Rui Coelho acabou por interpelar a Herdade do Freixo do Meio, em Montemor o Novo, cujo responsável também se interessou pela recuperação da bolota.

Hoje, é na Herdade que se produz a farinha de bolota que Rui Coelho utiliza na pastelaria, e foi ali também que se realizou, há alguns anos, o simpósio «Bolota: o futuro de um alimento com passado».

Na altura, além de Rui Coelho, surgiram diversos empresários que apostavam igualmente em produtos à base de bolota. Vinham dos quatro cantos do Alentejo e até de outros pontos do país. Naquele encontro, trocaram-se experiências e deram-se a conhecer iguarias como as broas de bolota e mel, tortas de bolota, licores de bolota, bolinhos e bolachas, tartelettes, bombons de bolota com chocolate e até café e iogurtes. 

A bolota também já tem lugar na cozinha gourmet, desde que o chef Pedro Mendes, do hotel Marmoris, em Vila Viçosa, se dedicou a fazer experiências com a bolota e a sua farinha. Além dos pratos que serve no restaurante deste hotel de luxo, publicou também um livro de receitas – o guia ideal para quem quer aventurar-se a olhar com outros olhos para este fruto seco. 

Apesar de ainda se desperdiçar a maior parte da produção de bolota do país, longe vão os dias em que ela servia apenas para alimentar os porcos. Esta mudança reflete-se também nos eventos gastronómicos de Alvito, conforme explica o presidente da Câmara: «este ano, pela primeira vez, a bolota vai integrar alguns pratos da nossa semana gastronómica, o «Outono à Mesa» onde ganham particular destaque amêndoas, castanhas, romã e o mogango, “frutos” da época que se introduzem cada vez mais na nossa gastronomia.

Alvito, uma vila cheia de história

Segundo consta, Alvito recebeu o seu nome da cultura da oliveira: na origem está a palavra «olivetto». 

Esta vila alentejana, com cerca de 1250 habitantes, alberga uma Pousada de Portugal de arquitetura invulgar, que na sua génese era o castelo da localidade. Mas existem outros atrativos, conforme realça António Valério: «o castelo é a imagem de referência de Alvito. Importa, contudo, destacar a Igreja Matriz, construção do século XVI com destaque para a arquitetura Manuelina e Renascentista, sendo ainda de relevar o magnífico revestimento azulejar dos séculos XVII e XVIII, bem como a talha dourada dos altares e a pintura fresquista, com particular interesse a pintura mural representando Santiago na antiga capela tumular dos barões de Alvito. Para além do Castelo e Igreja Matriz, impõe-se uma visita atenta e demorada às Igrejas de Sebastião e Sant’Águeda pela excelência da pintura mural, sem esquecer ainda a Igreja de Santo António dos inícios do século XVII bem como as Igrejas da Misericórdia e de Nossa Senhora das Candeias.»

Esta bonita vila alentejana assume como slogan de promoção «Alvito Manuelino», e quem a visita percebe porquê, conforme explica o autarca: «grande número de portas e janelas das Vilas de Alvito e Vila Nova da Baronia integram umbreiras e lintéis de pedra com decoração Manuelina de inspiração naturalista e simbologia real.» 

É, certamente, um património inesperado e cativante, em pleno baixo Alentejo,  e excelentes motivos para visitar Alvito. E porque não ir já este fim de semana?