SOPA DA PEDRA, UM PRATO LENDÁRIO, TÍPICO DE ALMEIRIM

Todos conhecemos a Sopa da Pedra, pelo menos de nome. No entanto, talvez nem todos os portugueses a tenham saboreado. Se é o seu caso, do que está à espera para provar a mais tradicional das sopas portuguesas? Uma sopa com origem lendária, cheia de ingredientes que a enriquecem… entre eles uma pedra, claro.

Uma lenda cuja origem se perde no tempo

Consta que terá sido um frade, munido de esperteza e determinação, o criador da Sopa da Pedra. Andaria ele em peditório de casa em casa, tentando suprir as suas necessidades mais básicas, quando chegou à porta de um lavrador que lhe recusou um contributo.

Com fome, ardiloso e inconformado com a recusa, o frade encontrou um estratagema para levar a sua avante: agarrou numa pedra, limpou-lhe o pó e, perante a recusa, comentou em voz alta que, nesse caso, ia fazer um caldinho de pedra.

Os donos da casa riram-se de tal ideia, mas o frade não desarmou. Lavou a pedra e pediu-lhes apenas um pucarinho para a colocar, e já iam ver como era boa a sua sopa de pedra.

Expectantes sobre o que ia sair dali, o pucarinho lá apareceu, e o frade começou a confecionar a sua sopa. Ao longo do processo, o descrédito sobre tão inusitada receita mantinha-se, mas o religioso ia mostrando que era possível. Sucessivamente, ia pedindo o que lhe faltava para completar a sua receita, desde a água às batatas e aos enchidos de porco. Aos poucos, a sopa da pedra ia ganhando forma e sabor.

Pedido após pedido, ingrediente após ingrediente, o que é facto é que o desafio lançado pelo frade acabou por levar a família do lavrador a fornecer tudo o que era necessário. No final, surgiu uma rica sopa, com todos os ingredientes que inicialmente haviam sido recusados. Perante o espanto dos donos da casa, a prometida Sopa da Pedra estava feita, o frade comeu-a e até lambeu os beiços.

No fundo da panela ficara apenas a pedra. O lavrador, impressionado, perguntou então o que lhe faria. O frade, astuto, respondeu que levaria a pedra consigo, e a guardaria para fazer uma nova sopa.

Almeirim, a terra onde a Sopa da Pedra é rainha

Conforme se pode apreciar ainda hoje em dia, a Sopa da Pedra reúne uma série de ingredientes, como o feijão, a batata, o chouriço ou a carne de porco. Uma combinação que resulta numa sopa robusta e nutritiva que, em boa verdade, dispensa qualquer segundo prato.

A famosa Sopa da Pedra é típica de Almeirim, uma cidade pertencente ao distrito de Santarém. Embora a encontre em outras zonas do país, é em Almeirim que a Sopa da Pedra sabe melhor. Este famoso prato faz parte da identidade da terra, e é servida em diversos restaurantes.

A tradição é, assim, rentabilizada pela restauração, mas também pela autarquia. A par do melão, do vinho e das típicas caralhotas, a Câmara Municipal de Almeirim aposta estrategicamente na promoção da Sopa da Pedra enquanto prato típico da região.

Ana Casebre, vereadora daquela autarquia, conta que «a aposta neste património gastronómico tem sido uma realidade, estando a Sopa da Pedra atualmente em processo de certificação como especialidade tradicional gastronómica». Uma iniciativa que considera «muito importante, pois a certificação será no futuro um fator de atratividade e, consequentemente contribui para a valorização da identidade da região.»

Mesmo sem certificação, a Sopa da Pedra já faz parte da identidade de Almeirim, e é muito procurada. De acordo com a vereadora, «são muitos os visitantes que diariamente recebemos junto à Praça de Touros, local onde se concentra a maioria da restauração local, com o intuito de degustar a Sopa da Pedra, situação que se intensifica no período em que decorre o Festival da Sopa da Pedra (28 de agosto a 1 de setembro), promovido pela Confraria Gastronómica de Almeirim, e pela autarquia local.»

A Confraria Gastronómica de Almeirim

A Confraria Gastronomica de Almeirim, surgiu por iniciativa de um grupo de pessoas orgulhosas da sua cidade, que viram na sopa da pedra uma forma de a homenagear e promover, assim como outros produtos característicos do concelho. O confrade João Paulo Simões, explica ao Feiras de Sabores que «a Confraria nasce de um grupo de amigos de Almeirim que habitualmente se juntava para jantar e confraternizar. Nesses momentos, gostávamos que a ementa incluísse pratos tradicionais dos costumes das gentes de Almeirim. Como consequência, quisemos oficializar os nossos princípios na forma de uma associação de defesa do património gastronómico e enófilo do concelho.» Criada em 2004, a Confraria tem sido um motor de divulgação, não apenas da Sopa da Pedra, mas da cultura, gastronomia, enologia, etnografia e património da região.

Atualmente, existem 37 confrades efetivos e 25 confrades de honra. Como é da praxe, têm uma vestimenta oficial para as ocasiões em que representam a Confraria. Um fato que é inspirado na roupa de trabalho tradicionalmente usada pelos habitantes locais, com calças, jaqueta em cotim militar e colete. A camisa é branca, o calçado é escuro e o barrete preto. Ao pescoço, usam um colar com fita verde e vermelha, com uma colher pendurada.

São muitos os eventos que dinamizam para a promoção da cultura local, desde a representação em eventos nacionais e estrangeiros até ao Festival da Sopa da Pedra, que está prestes a começar. Entre 28 de agosto e 1 de setembro, pode visitar a sétima edição desta mostra organizada em parceria com a Câmara Municipal de Almeirim. Aproveite para conhecer a gastronomia e o artesanato locais, num festival que também inclui atuações musicais.

É o mote ideal para visitar Almeirim, a cidade outrora conhecida como a Sintra d’Inverno, onde a realeza fazia grandes temporadas de caça. Possivelmente, já nessa altura, a jornada terminaria com uma reconfortante tigela de sopa da Pedra.

Uma receita que pode fazer em casa

Ao contrário de muitas outras receitas tradicionais, a sopa inventada pelo lendário frade não é segredo para ninguém. Promotora deste património gastronómico, a Câmara Municipal de Almeirim partilha no site a receita original, e o Feiras de Sabores desafia-o a pôr o avental e a fazer uma Sopa da Pedra em sua casa.

Mas atenção a alguns pormenores que fazem a diferença no resultado final: o feijão deve ser demolhado em vez de enlatado, e os enchidos devem ser de almeirim.

Mãos à obra e bom apetite!

Ingredientes:
– 2,5 l de água
– 1 kg de feijão catarino
– 1 Chispe de porco
– 1 chouriço de carne
– 1 chouriço de sangue (morcela) – 1 Farinheira
– 200 g de toucinho
– 2 cebolas
– 2 dentes de alho
– 700g de batatas
– 1 molho de coentros
– Sal, louro e pimenta a gosto

Preparação:

Ponha o feijão a demolhar de um dia para o outro. De véspera, tempere as carnes. No próprio dia, leve o feijão a cozer em água, juntamente com as carnes, os enchidos, o toucinho, as cebolas, os dentes de alho e o louro. Tempere de sal e pimenta. Junte mais água, se for necessário. Quando as carnes e os enchidos estiverem cozidos, tire-os do lume e corte-os em bocados. Junte, então, à panela as batatas, cortadas em cubinhos e os coentros bem picados.
Deixe ferver lentamente até a batata estar cozida. Tire a panela do lume e introduza as carnes previamente cortadas. No fundo da terrina onde vai servir a sopa coloque uma pedra bem lavada.