CERVEJA, UMA COMPANHIA SEMPRE BEM VINDA

Imperial, fino, caneca, girafa… seja qual for a designação, a cerveja faz parte da rotina dos portugueses. É certo que o calor estimula o consumo de uma cerveja bem fresquinha, mas a nossa relação com esta bebida mantém-se estreita ao longo de todo o ano.

A cerveja no mundo

Em 2018, os portugueses consumiram uns impressionantes 527,6 milhões de litros de cerveja, mais 0,5% do que no ano anterior. Uma quantidade que, em teoria, equivale a 51 litros anuais por cada habitante. Os dados são dos Cervejeiros de Portugal, e divulgados pela plataforma Hipersuper.

Na prática, 51 litros de cerveja per capita pode parecer muito. No entanto, não se compara a outros bebedores do mundo, nem chega sequer para constarmos no top 15 dos países que mais consomem cerveja. Um ranking que é encabeçado, há mais de vinte anos (!), pela República Checa, que bebe uns (mais impressionantes ainda) 137 litros per capita !

Estes dados são de um estudo de 2017 da Statista, a que a revista Forbes teve acesso. No ranking, surge em segundo lugar a Polónia, com um valor significativamente inferior, de 98 litros. Outros países de leste seguem-lhes no encalço, ocupando outros lugares cimeiros desta tabela.

Este estudo da Statista revela ainda que o país que mais gasta dinheiro em cerveja é a Austrália, que ocupa um modesto 13º lugar na lista dos maiores consumidores. A explicação parece estar nas diferenças de preços entre os vários países.

“Outro dos benefícios da cerveja foi recentemente desvendado por um estudo publicado na revista Environmental Science and Technology, e indica que esta bebida pode ser uma forma «sustentavel, barata, simples e de aplicação imediata» para limpar rios poluídos…”

Cerveja portuguesa, com certeza

Ao contrário do que acontece a nível do consumo, os dados dos Cervejeiros de Portugal indicam que, em 2018, houve uma descida de 3,3% ao nível da produção de cerveja, para 676,3 milhões de litros. Destes, 162,2 milhões foram exportados, o que representa também um recuo, bastante significativo, de 14,6%.

São bem conhecidas as grandes referências portuguesas da produção de cerveja, com dois gigantes concorrentes: Sagres e Super Bock. As duas marcas são, desde há muito, rivais e líderes do mercado nacional, mas outras marcas têm vindo a afirmar-se, nomeadamente no que toca a cervejas artesanais.

A portuense Sovina deu o mote para a nova moda da cerveja artesanal há quase uma década, mas não foi pioneira. Em Coimbra, por exemplo, nos anos 60, produziam-se as cervejas Onyx e Topázio, relançadas recentemente, em 2017, por uma startup.

De acordo com dados da Nielsen citados pelo Jornal Económico, hoje já são mais de 140 os produtores de cerveja artesanal portugueses. No entanto, destes 140, apenas 10 cumprem os requisitos de adesão aos Cervejeiros de Portugal, nomeademente terem produção mínima de 200 hectolitros por ano.

A nova era da cerveja artesanal

É certo que, pelo menos por enquanto, as cervejas artesanais não são uma ameaça aos gigantes do setor. Os dados da Nielsen indicam que o mercado das cervejas artesanais representa uma quota de apenas 1%, mas o seu crescimento foi de 10% em valor, e de 15% na quantidade. São valores acima dos do mercado global das cervejas.

Na verdade, os próprios gigantes cervejeiros já apostam nas cervejas artesanais, com linhas próprias, e o investimento neste setor cativa também outros produtores. Veja-se o exemplo da própria Sovina, que nasceu da conjugação de esforços de três amigos, e acabou por ser adquirida, em 2018, por uma referência dos vinhos: a Herdade do Esporão.

Sejam pequenos ou grandes produtores, quem fica a ganhar são os consumidores, que veem alargada a oferta de cerveja à sua disposição. As novas marcas de cerveja artesanal têm nomes apelativos e até rebuscados, como Cinco Chagas, Abaladiça, Brianda, Dois Corvos, Maldita, Sacarrabos ou Velhaca. São de todo o país, e fazem a sua produção em estruturas de pequena ou média dimensão, muitas vezes com espaços de restauração associados.

Uma bebida com benefícios e alguns riscos

A cerveja é obtida a partir do processo de fermentação de um cereal, regra geral a cevada. No entanto, também há quem a produza a partir de outros cereais, como o milho, o trigo ou o arroz.

Mas será que existem na cerveja benefícios nutricionais? Um artigo da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard resume esta questão, explicando que contém os mesmos compostos fenólicos do vinho, mas em menor quantidade.

Diversos estudos têm indicado que estes compostos têm propriedades antioxidantes, que são benéficas para a saúde. Ainda assim, são residuais, quando comparados com outros alimentos como os frutos vermelhos por exemplo.

Um artigo do prestigiado site WebMD explica que a cerveja é basicamente constituída por água, cereal (geralmente cevada), lúpulo e fermento. O mesmo artigo refere que, no caso da cerveja à base de cevada, cerca de 70 a 80% dos tais compostos benéficos derivam do malte da cevada, e os restantes 20 a 30% do lúpulo daquele cereal.

A cerveja contém ainda alguns nutrientes como as vitaminas do complexo B ou o potássio mas, como todo o álcool, não deve ser consumida em demasia. As consequências para a saúde são bem conhecidas, desde o risco de cirrose, cancro, obesidade, problemas cardiovasculares, etc.

Quanto à chamada «barriga de cerveja», na verdade é acumulada por um excesso de calorias de qualquer proveniência, não necessariamente da cerveja…

Limpar rios com cerveja

Outro dos benefícios da cerveja foi recentemente desvendado por um estudo publicado na revista Environmental Science and Technology, e indica que esta bebida pode ser uma forma «sustentavel, barata, simples e de aplicação imediata» para limpar rios poluídos !

O Centro de Estudos Avançados de Blanes – Conselho Superior de Investigações Científicas, sedeado em Girona, Espanha, aponta o excesso de nitratos como o maior problema das água fluviais, pois estes químicos diminuem a quantidade de oxigénio na água e potenciam a proliferação de microalgas.

Ora, de acordo com o referido estudo, se as fábricas de cerveja verterem para o rio os seus resíduos, «consegue-se incrementar até 40% as taxas de desnitrificação bacteriana». Esta técnica não se restringe à teoria, pois já está a ser implementada, de forma experimental, nos parques urbanos de Barcelona.

Álcool sim, mas com moderação

O facto de Portugal não estar entre os maiores consumidores de cerveja não nos impede de sermos um dos maiores consumidores de álcool a nível mundial.

Dados de 2006 revelados pela Organização Mundial da Saúde indicam que consumimos 12,3 litros de álcool por ano. O equivalente a um oitavo lugar entre os maiores consumidores de bebidas alcoólicas.

Em resultado, o consumo de álcool em Portugal está claramente acima da média da União Europeia, que em 2016 se situava nos 9,8 litros por ano. Por isso, a OMS emitiu no relatório diversas recomendações para reduzir este valor, como já fizeram os russos, por exemplo, o que lhes valeu uma descida no ranking dos maiores bebedores.

Algumas das medidas sugeridas pela OMS foram o aumento da taxação sobre as bebidas alcoólicas, a imposição de preços mínimos ou a limitação de publicidade e marketing destes produtos.

Apesar de bebermos muito, felizmente o impacto das bebidas alcoólicas na nossa saúde está abaixo do resto da União Europeia: em Portugal, o álcool está na origem de 282 por cada milhão de mortes enquanto na União Europeia a média se situa em 383 mortes por cada milhão.

Estatísticas à parte, todos sabemos que não se deve beber em excesso. O ideal é apreciar a bebida sem agredir o organismo.

A propósito, saiba que o Dia Mundial da Cerveja não tarda a chegar, sendo celebrado na primeira sexta feira de agosto. Não se esqueça de celebrar. Com conta, peso e medida.