CHEGOU O VERÃO, É ALTURA DE FÉRIAS, DE PRAIA E… DE COMER CARACÓIS! UMA IGUARIA APRECIADA DESDE O TEMPO DO HOMO SAPIENS

O verão já se instalou, e nem as temperaturas meio incertas nos impedem de cumprir um ritual tipicamente português, próprio desta época do ano: comer uma boa travessa de caracóis. Geralmente, vêm acompanhados por pão torrado e cerveja bem fresquinha. Se ainda não comeu caracóis este ano, do que está à espera?

Um ritual a cumprir todos os anos

Estamos num mês sem a letra R, logo é altura de comer caracóis. Assim manda a tradição popular portuguesa.

É nos meses mais quentes, entre maio e agosto, que os caracóis atingem o seu estado de maturação e ficam no ponto para serem apanhados, cozinhados e consumidos.
Se tivermos paciência, podemos apanhá-los no campo, geralmente agarrados a certas plantas. Se preferirmos poupar tempo, podemos sempre atalhar caminho e comprar uma saca para os cozinhar.

Ainda assim, a opção mais simples é sentarmo-nos numa esplanada ou numa tasca com amigos ou familiares, mandar vir umas cervejas e pão torrado com manteiga para acompanhar, e apreciar uma boa caracolada. Na montra, uma simples frase anuncia aquilo que nos interessa saber: «Há caracóis». É quanto baste para uma tarde bem passada.

Quem gosta de caracóis encontra-os quase em cada tasca de esquina, mas temos uma casa que se tornou uma referência nesta matéria: a Casa dos Caracóis.
É uma marca do grupo Francisconde, fundado por Francisco Caetano, que contou a sua história ao Feiras de Sabores: «Há mais de 30 anos era proprietário de um café na Quinta do Conde onde vendia muitos petiscos, vendia caracóis em pequena quantidade. Devido a uma doença fechei o café e a dada altura dediquei-me à venda do caracol. Comprava caracóis em Portugal mas havia pouco, então comecei a importar de Espanha. Em 2000, abri um armazém em Marrocos e comecei a comprar diretamente no campo e a controlar melhor a qualidade do caracol.»

Hoje, o grupo Francisconde tem três armazéns (em Portugal, Espanha e Marrocos), uma box no MARL, e ainda dois restaurantes e sete lojas onde se vendem os apetitosos caracóis. Nestas, o grupo movimenta anualmente cerca de 700 toneladas de caracol e caracoleta.

A par do movimento nas lojas, o Grupo Francisconde importa cerca de dois milhões de toneladas de caracóis para outras lojas de Portugal, e um milhão para Espanha.

Um pequeno molusco muito nutritivo

O caracol é um molusco gastrópode, que é como quem diz, arrasta a barriga no chão para se deslocar. Atinge a maturidade com cerca de três anos e pode viver até dez.

Do ponto de vista nutricional, é constituído em boa parte por água e proteína, mas também minerais como magnésio, ferro, zinco e cobre.
Como se todas estas boas referências não bastassem, é também pouco calórico. Quer isto dizer que pode consumi-los à vontade, sem grandes receios de arruinar a dieta. Na verdade, o maior risco para quem se preocupa com a linha está na cerveja e no pão torrado com manteiga que os costumam acompanhar…

Os mais antigos registos do consumo de caracóis são de nuestros hermanos

Agarrar num palito ou num alfinete e passar uma tarde a comer caracóis é um ritual de verão para muitos portugueses. Embora a maior parte dos caracóis que consumimos venha de Marrocos, esta espécie abunda no nosso território. Com efeito, perde-se no tempo a origem deste consumo sazonal.

Ainda assim, um estudo publicado na revista científica Plos One dá algumas pistas: os mais antigos registos que atestam o consumo de caracóis foram encontrados em Espanha, mais precisamente na Cova de la Barriada, em Benidorm. Estes achados datam do Paleolítico Superior, há cerca de 30 mil anos, e mostram que o homo sapiens que habitava esta região consumia caracois de forma regular.

As escavações tiveram início em 2011 e trouxeram à luz do dia centenas de cascas de caracóis da espécie Iberus alonensis, muito comum nesta região. Estes indícios são cerca de 10 mil anos mais antigos do que outros, semelhantes, anteriormente encontrados em França, Marrocos, Itália e Balcãs.

De acordo com o estudo, esta recoleção de cascas de caracóis foi encontrada em três assentamentos sucessivos, revelando, portanto, um consumo continuado.
Em regra, os caracóis encontrados eram de indivíduos adultos, com mais de 55 semanas de vida, e foram assados em madeira de pinho e zimbro a cerca de 375 graus.

Caracóis para todos os gostos

Em 1999, a Câmara Municipal de Loures avançou com uma ideia vencedora: criar o Festival do Caracol Saloio. A receita era simples, mas surpreendeu toda a gente: um recinto de entrada livre, várias tasquinhas, muitos petiscos com caracóis, e um número crescente de visitantes.

Fernando Correia, do Gabinete de Comunicação Social da Câmara Municipal de Loures, explica ao Feiras de Sabores que «o Festival do Caracol Saloio começou com meia dúzia de tasquinhas, algumas de associações do concelho, outras de restaurantes também do concelho. Ano após ano, a procura tem sido maior, sendo feita uma seleção (mediante critérios apresentados nas Normas de Participação) dos espaços a atribuir: 10 para tasquinhas; 40 para artesanato; 10 para street-food. Hoje em dia estimamos que passem pelo evento cerca de 100 mil pessoas, ao longo dos 18 dias, vindas dos mais variados pontos do País e estrangeiro.»

De facto, a edição de 2018 contou com cerca de 100 mil visitantes, e a boa notícia é que o Festival do Caracol Saloio deste ano está a começar. Marque na agenda: decorre de 11 a 28 de julho, junto ao Pavilhão Paz e Amizade, em Loures.

O acesso é livre e a animação musical, os showcookings e o artesanato local entretêm os visitantes que queiram esticar as pernas para ajudar à digestão, entre dois pratos da caracóis ou caracoletas.

O difícil é escolher entre a vasta oferta, oriunda de Marrocos, e que vai muito para além dos tradicionais caracóis à portuguesa. E, de facto, porque não apostar na versatilidade destes pequenos moluscos que tanto apreciamos?

No Festival do Caracol Saloio, em Loures, pode experimentar pratos que conjugam a tradição com a inovação, como os Rissóis de Caracol, as Caracoletas à Bulhão Pato, a Feijoada de Caracoleta ou ainda os Ovos Mexidos com Caracoleta e Farinheira. Todas estas são receitas típicas portuguesas, que foram adaptadas a este pequeno grande petisco nacional.

Ao longo do tempo, alguns acontecimentos emblemáticos marcaram a já longa história do Festival do Caracol Saloio. É o caso do maior tacho de caracóis do mundo, servido em antecipação da edição de 2009. Nessa altura, mais de uma tonelada de deliciosos caracóis foram servidos e a quantidade inédita mereceu, inclusivamente, um registo no Guinness Book of Records.

Claro que foi necessário criar um tacho especialmente para o evento, com uns respeitáveis três metros de diâmetro por um de fundura. Fernando Correia, da Câmara de Loures, explica que, «para se ter uma ideia do tamanho e do peso do tacho, a tampa teve que ser aberta com uma grua.»
O consumo de caracóis tem uma longa tradição em Loures, quando esta ainda era considerada a «zona saloia», «fora de portas», onde os lisboetas «iam a ares» no verão. Era uma época em que as férias se passavam no campo, antes de as praias se tornarem moda.

Petisco para uns, um nojo para outros

Outro ponto alto do Festival do Caracol Saloio que colocou Loures no mapa gastronómico português foi a reportagem de Andrew Zimmern para o programa Bizarre Foods do Travel Channel. Sim, porque boa parte do planeta considera o caracol um prato bizarro.

A iguaria que faz crescer água na boca dos portugueses é, para muitos estrangeiros, um motivo para torcer o nariz. Como nós próprios faríamos, por exemplo, perante a ideia de comer lesmas ou insetos. É tudo uma questão de perspetiva, e de cultura do paladar.

Para os franceses comer caracóis não será grande novidade, uma vez que uma das suas especialidades gastronómicas mais gourmet são os famosos escargots – caracoletas com um molho característico – mas noutras paragens a realidade é diferente. Até pode divertir-se com o tema, se procurar na internet vídeos com reações engraçadas de horror de estrangeiros perante o consumo de caracóis.

Caracóis à portuguesa

Se cozinhamos o bacalhau de mil e uma maneiras, porque não fazer o mesmo com o caracol?

Como vimos, a ideia já conquistou milhares de adeptos no Festival do Caracol Saloio. Ainda assim, a maioria ainda se mantém fiel à forma tradicional de os confecionar.
O Feiras de Sabores apresenta-lhe a receita mais tradicional, para experimentar em casa. Afinal, há que manter a tradição e nada melhor do que reunir a família ou os amigos à volta de uma boa caracolada.
Bom apetite!

RECEITA:
Caracóis à portuguesa
Ingredientes:
4 kg de caracóis
3 cebolas grandes
2 cabeças de alho
Sal
Orégãos

Preparação:Lave muito bem os caracóis em água corrente até ficarem completamente limpos. Deite os caracóis numa panela e cubra-os completamente com água. Deixe-os ficar assim durante 20 minutos. De seguida, coloque a panela em lume brando até os caracóis estarem mortos. Depois junte as cebolas cortadas ao meio, os alhos cortados em bocados, com a pele, e o sal e levante o lume para o máximo. Deixe cozer durante cerca de 25 minutos e, um pouco antes do final do tempo, mexa os caracóis durante uns minutos e adicione os orégãos.

Fonte: «Petiscos de fazer crescer água na boca», de Fernando Mendes (A Esfera dos Livros)