REDESCOBRIR O MEL: DOCE NÉCTAR QUE CURA DOENÇAS

A produção de mel ocupa o dia a dia das abelhas e, desde que o homem se apercebeu das qualidades deste precioso néctar, passou a consumi-lo. Passou também a ajudar estes insetos trabalhadores a produzi-lo, através da apicultura. Na antiguidade clássica, o mel era considerado o néctar dos deuses do Olimpo mas, na época dos Descobrimentos, acabou por ser suplantado pelo açúcar, que era uma novidade. Hoje em dia, ao mesmo tempo que o açúcar passou a ser considerado o inimigo público número um, as propriedades benéficas do mel têm vindo, cada vez mais, a ser reconhecidas pela ciência. Escolha mel de qualidade e inclua-o na sua rotina alimentar.

O néctar dos deuses

Do ponto de vista nutricional, o mel é um alimento que apresenta inúmeros benefícios. O nutricionista Custódio César  explica que «o mel é uma mistura natural de hidratos de carbono – frutose, glicose e oligossacáridos e pequenas concentrações de aminoácidos, vitaminas, minerais, ácidos orgânicos e compostos fenólicos e enzimas».
O seu índice glicémico é inferior ao do açúcar mas, ainda assim, deve ser consumido com moderação, sobretudo por pessoas diabéticas. Tem propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antibacterianas, e «pode ser usado também como energético e rehidratante no desporto». É uma boa fonte energética antes do treino, também durante o treino (desde que dissolvido em água até 8%) ou depois do treino, «para repor as reservas de glicogénio hepática e muscular.»
Os benefícios terapêuticos do mel estão bem documentados pela ciência: é benéfico no tratamento de úlceras varicosas e queimaduras, em constipações, no tratamento de afeções orais e digestivas como faringite, gastrite, refluxo gastro-esofágico ou gastroenterites. E é ainda um aliado contra certas infeções bacterianas do aparelho urinário, em que se demonstrou claramente a ação antibacteriana do mel.
Uma meta-análise  publicada em 2017, que abrange estudos sobre o mel realizados entre 1070 e 2014, resume as conclusões na seguinte frase: «existem diversos indicadores que sugerem a utilidade do mel no controlo de doenças. Por isso, o mel é altamente recomendado na prática clínica.» Esta conclusão sumária vem acompanhada de um esquema que associa os benefícios do mel ao controlo de doenças como a diabetes, feridas, asma, doenças neurológicas, cardiovasculares, gastrointestinais e cancro.
Esta meta-análise refere ainda que o mel é consumido desde há mais de cinco mil anos, por povos ancestrais como os gregos, romanos, maias, egípcios, chineses, entre outros, com aplicações a nível nutricional, cosmético, terapêutico e industrial.
No entanto, este alimento cheio de propriedades benéficas está em risco, com a ameaça que paira sobre as abelhas e o seu meio ambiente. Seja pela utilização de inseticidas, químicos ou outros fatores, o desaparecimento massivo de abelhas desde 2007 tem vindo a preocupar a comunidade científica e ambiental. E devia preocupar-nos também a todos nós.
O génio Albert Einstein terá dito que «quando as abelhas desaparecerem da face da Terra, o homem tem apenas quatro anos de vida«. Alarmista ou não, o que é certo é que as abelhas são largamente responsáveis pela polinização, e sem polinização não existirá agricultura, nem alimentos. E claro que sem alimentos a espécie humana não sobrevive.
A boa notícia é que cada um de nós pode fazer uma pequena diferença, ao cultivar plantas com flores nem que seja num parapeito de janela, reduzir ao máximo o uso de pesticidas e optar por produtos biológicos, que os dispensam. Já fez a sua parte?

Como se não bastasse o desequilíbrio ambiental que coloca em risco as abelhas, outra ameaça a esta espécie, e à apicultura, é a vespa velutina. Mais conhecida como vespa asiática, é uma espécie oriunda de regiões tropicais e subtropicais, nomeadamente Índia, China, Indochina ou Indonésia…

Retrato da apicultura em Portugal

De acordo com o boletim estatístico da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP), dados de 2017 revelam que existem no nosso país mais de dez mil apicultores e mais de 710 mil colónias de abelhas. No entanto, os apicultores profissionais (leia-se explorações apícolas com mais de 150 colmeias, definição da União Europeia) são pouco mais de mil. Ainda assim, o número de apicultores profissionais é quase 60% maior do que em 2007.
Outro dado a assinalar é o aumento significativo do número de colónias por apicultor, profissional ou não: no cômputo geral, este aumento é de 91% relativamente a 2007, com as atuais 65 colónias, em média, por apicultor.
De acordo com o mesmo relatório da FNAP, a idade média dos apicultores portugueses é de 56 anos, 64% têm apenas a escolaridade básica e 73% nunca tiveram qualquer formação sobre apicultura. O documento revela ainda que esta atividade «é maioritariamente detida por pequenos apicultores», sobretudo «exercida a título acessório, como complemento de uma atividade principal agrícola ou não».
Em consequência disso, refere o relatório, em regra «as explorações possuem efetivos de baixa produtividade, falta de mão-de-obra especializada duradoura (problemas de baixo nível de escolaridade e de insuficiente formação específica), carências a nível de maneio sanitário e um deficiente maneio técnico (escasso recurso a alimentação artificial, insuficiente substituição de rainhas, falta de controlo da enxameação, escasso recurso à prática da transumância e inadequada instalação dos apiários).» Ou seja, uma produção rudimentar, menos eficiente mas próxima das técnicas tradicionais.

Menos produtores, mais produção, qualidade elevada

Na prática, os dados existentes revelam que a produção de mel tem vindo a crescer em Portugal, enquanto o número de apicultores tem vindo a diminuir. Ou seja, cerca de menos 5 mil apicultores (do que em 2007) detêm hoje mais 30% de colónias do que naquele ano. Em termos de valor bruto da produção, esta aumentou 53%, para mais de 76 milhões de euros em 2017.O presidente da Federação Nacional dos Apicultores de Portugal, Manuel Gonçalves, explica que «para maximizar a produção de mel, os apicultores nacionais desenvolvem estratégias de maneio das suas colónias. Maneio reprodutivo, alimentar e sanitário. Essas estratégias têm de contribuir para ter colmeias saudáveis, bem nutridas e suficientemente desenvolvidas para conseguir obter das florações silvestres (normalmente muito curtas e totalmente dependentes das condições climatéricas) o máximo de rendimento.»
Quando questionado sobre como escolher um bom mel, Manuel Gonçalves é peremptório: «Comprem mel produzido em Portugal por apicultores portugueses.» A par da questão nacionalista, o conselho assenta também nas condições que existem no nosso país: «O mel produzido em Portugal é de altíssima qualidade, pois beneficia da conjugação de três fatores: a diversidade e qualidade ambiental dos territórios onde se pratica maioritariamente apicultura em Portugal, ou seja, áreas de matos, floresta e de agricultura de baixa intensidade, aliadas às apertadas regras colocadas sobre a produção de géneros alimentícios pela União Europeia e complementadas com a crescimento do nível técnico dos apicultores portugueses. Desta conjugação, resulta um produto de elevada qualidade, o mel português, que, simultaneamente, é um produto seguro para o consumidor e de elevada qualidade organolética.»
Se desconhece este termo, nós explicamos: refere-se às propriedades que recolhemos através dos sentidos, neste caso através do paladar, do olfato e até, porque não?, da visão e do tacto. «O nosso território ainda mantém características que permitem aos apicultores portugueses produzir mel a partir de florações silvestres, como o Rosmaninho, a Urze ou o Alecrim, em zonas de grande qualidade ambiental. Estes são méis de grande riqueza de aromas, cores e sabores, diversos e seguros.»
No entanto, o mel nem sempre passa de forma direta e incólume do favo para o frasco que temos em casa. Em regra, nas grandes produções existe um processo que vai da extração, processamento com aquecimento, pasteurização e filtragem, para retirar impurezas. O problema, de acordo com o nutricionista Custódio César, é que durante este processo «o aquecimento excessivo do mel destrói enzimas e vários outros nutrientes».
A boa notícia é que também existe no mercado mel que não passa por este processo, e que é mais puro e nutritivo. A diferença nota-se, por exemplo, na sua consistência, sendo mais espesso e até cristalizado. Sempre que possível,. compre o mel diretamente ao produtor. Ou opte por mel biológico, com a garantia de que não é processado: a recolha do mel é feita por escorrimento ou centrifugação.
A tendência bio também já chegou ao mel
É sabido que, em Portugal, os produtos biológicos têm vindo a ganhar espaço nas prateleiras dos supermercados e à mesa da refeição. Dados do Eurostat indicam que, em 2017, a percentagem de área de produção agrícola dedicada à agricultura biológica era de 7%, em linha com a União Europeia e à frente de países como a Alemanha ou a Croácia. A tendência bio também se aplica ao mel, conforme reconhece o representante da Federação Nacional de Apicultores de Portugal, Manuel Gonçalves: «o Modo de Produção Biológico está a crescer na apicultura, atualmente a um ritmo inferior ao verificado no passado recente. Mas esse crescimento ainda é importante, e tem permitido aos apicultores colocarem o seu produto em mercados específicos com capacidade (e vontade) para acompanhar a diferença de preço.»
As normas para a produção de mel biológico são rigorosas e estão definidas na legislação. Entre outras normas, existem algumas proibições que marcam a diferença entre este processo e o convencional: é proibida a destruição das abelhas nos favos como método de colheita de mel, o corte de asas da rainha, o uso de repelentes químicos ou a destruição de machos (excepto como método de controlo sanitário da varroa). É também proibida a alimentação estimulante para a postura da rainha e a alimentação artificial só é permitida caso esteja em risco a sobrevivência da colónia. A par do mel, existem no mercado outros produtos produzidos pelas abelhas, como o propólis, a cera ou a geleia real, cada um com os seus benefícios. Existe ainda uma enorme diversidade de produtos apícolas como o hidromel, os doces e produtos de cosmética, como sabonetes ou cremes hidratantes. São formas alternativas de aproveitar os benefícios do precioso néctar produzido pelas abelhas.

Mudar de vida para criar abelhas como antigamente

Conforme vimos no relatório da FNAP, boa parte dos apicultores portugueses chegaram à atividade de forma espontânea, sem qualquer preparação formal. O casal Luís e Sónia Costa são um destes casos. Instalados na zona de Torres Vedras, desde 2011 que se dedicam à apicultura natural. Uma atividade a tempo inteiro, desde que decidiram voltar as costas a uma vida agitada de comércio de máquinas agrícolas, para viverem ao sabor dos ritmos da natureza.

Sónia Costa explica como chegaram a esta doce transição: «Como estávamos a trabalhar numa zona onde tínhamos um terreno para desanuviar o Pedro tinha iniciado a apicultura com duas colmeias de um vizinho que tinha ficado doente. Como na altura tínhamos uma filha de 8 anos e com problemas de saúde, precisávamos de mudar o ritmo de vida e estilo de vida. Por isso largámos o negócio e resolvemos embarcar pela apicultura. A apicultura foi a escolha mais fácil na altura porque já tínhamos iniciado apesar de ser um hobby.» Um hobby cuja aprendizagem partilham em tutoriais no youtube e em aconselhamento gratuito através do website que criaram. Uma forma de facilitar a vida a quem lhes queira seguir os passos. «Tem sido uma aprendizagem, todos os anos são diferentes. Estamos a trabalhar com animais que fazem o que querem e pela nossa escolha de apicultura natural o desafio é ainda maior.»

A apicultura natural segue os métodos mais tradicionais, em que a intervenção humana no processo de produção das abelhas é mínimo, e não existe o objetivo de maximizar a produção. Sónia Costa explica que «as diferenças são muitas. A apicultura natural tem como principal objectivo respeitar o desenvolvimento da abelha, tentamos proporcionar a melhor casa, para que possam viver conforme viviam enquanto selvagens, não usamos químicos, não usamos alimentação artificial. Isto e mais algumas coisas que a apicultura convencional não faz.» A atividade profissional que hoje têm reflete o respeito pela natureza que sempre tiveram, e que agora aplicam no seu meio de sustento. «Tentamos buscar as técnicas utilizadas antes de as abelhas começarem a morrer em grande escala, técnicas ou formas de trabalhar as colmeias onde as podemos deixar fazer o trabalho “quase” sozinhas, porque o nosso objectivo é ter abelhas a trabalhar como elas sabem tão bem fazer sem precisar da intervenção do homem para tudo. Não queremos abelhas amestrados e doentes.»

Tal como o casal Costa foi aprendendo aos poucos esta arte, Sónia garante que qualquer pessoa pode aprender. Até as crianças.

A ameaça que vem dos ares

Como se não bastasse o desequilíbrio ambiental que coloca em risco as abelhas, outra ameaça a esta espécie, e à apicultura, é a vespa velutina. Mais conhecida como vespa asiática, é uma espécie oriunda de regiões tropicais e subtropicais, nomeadamente Índia, China, Indochina ou Indonésia.

Em Portugal, esta espécie invasora existe sobretudo na região norte, mais fresca, e é considerada uma ameaça por ser predadora da abelha europeia – apis mellifera – que produz o mel. Deste modo, a vespa asiática é também uma ameaça à agricultura, na medida em que coloca em causa a polinização.

Por colocar em risco as abelhas e a indústria do mel, Portugal tem um Plano de Ação para a Vigilância e Controlo da Vespa velutina em Portugal. A par disso, foi lançada em fevereiro deste ano uma campanha nacional de combate a esta espécie. O lançamento da campanha, em Marco de Canaveses contou com a presença do Ministro da Agricultura Capoulas Santos e dos secretários de Estado da Agricultura e Alimentação, e das Florestas e Desenvolvimento Rural, e prevê o financiamento de um milhão de euros para a destruição de 10.000 ninhos desta espécie invasora.
A tarefa ficará a cargo das Câmaras Municipais, mas os particulares que o queiram fazer têm à disposição o Manual de Boas Práticas de destruição de ninhos de vespa velutina. Para denúncia e monitorização destes ninhos, o INCN disponibiliza a plataforma SOS Vespa, que cobre todo o país. A plataforma pode ser utilizada por qualquer pessoa, para ajudar a proteger as abelhas e o ecossistema. Esta é, afinal, uma missão para a qual todos devemos contribuir.