CASTELÃO UMA CASTA PORTUGUESA, COM CERTEZA

Entre as mais de trezentas castas nacionais, a Castelão é uma das mais utilizadas na vinha portuguesa. Uma casta de uva tinta, que atinge o seu esplendor máximo na Península de Setúbal. O Feiras de Sabores quis conhecê-la melhor e, neste artigo, partilhamos consigo a essência da famosa Castelão.

Uma paisagem vinícola muito diversificada

De acordo com dados de 2017 do Instituto da Vinha e do Vinho, as castas mais utilizadas em Portugal são a Aragonez (também conhecida como Tinta Roriz e Tempranillo), a Touriga Franca, a Touriga Nacional, a Fernão Pires (também conhecida como Maia Gomes) e, em quinto lugar, a Castelão. Ocupa pouco mais de 9 mil hectares de cultivo, o que representa apenas 5% da área de vinha nacional. 
No entanto, dado o panorama nacional, não pense que é pouco: a casta mais abundante (Aragonez) não ultrapassa os 11%. É o reflexo da enorme heterogeneidade de espécies vinícolas utilizadas na vinha portuguesa.
De acordo com o Engenheiro Eiras Dias, Coordenador do Polo do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) de Dois Portos, existem «343 castas aptas a produzir vinho em Portugal», enumeradas pela Portaria nº 380/2012 de 22 de novembro. «Destas, consideramos que cerca de 240 são castas da Península Ibérica, sendo difícil discernir entre Portugal e Espanha, embora saibamos que algumas referências nacionais como a Touriga Nacional T, a Fernão Pires B, a Castelão T, … são de origem portuguesa. As mais utilizadas são cerca de 60.»
Cabe ao INIAV a tarefa de «manter a Coleção Ampelográfica Nacional sempre atualizada. Há um trabalho de prospeção contínua e, sempre que são localizadas plantas/castas que não estejam representadas, são recolhidas e introduzidas na Coleção.»

A rainha do vinho setubalense

Sendo a quinta casta tinta mais utilizada em Portugal, a Castelão dá o melhor de si em climas quentes e solos secos e arenosos. Assim, o seu território de eleição é a Península de Setúbal e o Alentejo, mas é em Setúbal que atinge todo o seu potencial.
Em entrevista ao Feiras de Sabores, o Engenheiro Eiras Dias apresenta a explicação mais provável para esta realidade: «Um dos fatores mais determinantes da adaptação das castas são as temperaturas acumuladas desde o abrolhamento à maturação. Castas de maturação tardia em regiões temperadas podem nunca chegar a atingir a maturação plena e não expressão de todo o seu potencial enológico. A Castelão é muito sensível a condições adversas durante a floração, sendo bastante tolerante às doenças no período da maturação. Poderá ser esta uma das razões da sua boa adaptação à região de Setúbal.»
De facto, de acordo com dados apresentados no site da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, esta casta ocupa quase 60% do encepamento da Península de Setúbal, onde o concelho com maior área encepada é Palmela.
A região de Setúbal tem uma área de vinha que ronda os 9400 hectares e, destes, mais de 6100 correspondem a vinho certificado, com 78% de castas tintas e 22% de brancas. Entre as tintas, a Castelão domina de forma esmagadora, com quase 70% do total e mais de 3300 hectares.

Uma casta de sabores tradicionais

Com o olhar aprofundado de especialista no estudo das castas vinícolas (Ampelografia), Eiras Dias explica que a Castelão costuma ser combinada «com castas que melhorem a longevidade dos seus vinhos». Partilha ainda que a Castelão figura na base de dados Vitis International Variety Catalogue (VIVC) sob o nº 23242, que a apresenta como resultante do cruzamento natural de Sarigo e Alfrocheiro Preto. 
Ao nível da morfologia, entre outras características, o INIAV refere que a Castelão apresenta «extremidade do ramo jovem aberta, com orla ligeiramente carmim e elevada densidade de pêlos prostrados, com folha jovem amarelada. Folha adulta de tamanho médio, pentagonal, com cinco lóbulos. Cacho médio, cónico-alado, compacto, pedúnculo curto. Bago arredondado, médio e negro-azul; película medianamente espessa, polpa firme.» 
Em maturação, apresenta ainda «porte erecto. Vigorosa. Boa produtividade. Tendência para rebentação múltipla.»

A importância de se chamar «Castelão»

Existem em Portugal inúmeras castas de vinha que os diferentes produtores combinam para produzir os vinhos nacionais tão apreciados aquém e além fronteiras. Muitas destas castas são conhecidas por nomes diferentes, mas todos estão registados na Lista das Castas Aptas à Produção de Vinho, no Regulamento do Conselho da União Europeia nº 1234/2007. 
«Periquita» é talvez a designação mais comum da casta Castelão, mas deve-se à plantação vinícola centenária de José Maria da Fonseca na Cova da Periquita, em Azeitão, e à marca de vinhos que fundou com grande sucesso em 1850.
A marca «Periquita» rapidamente ganhou projeção, inclusive internacional, sendo premiada com medalhas de ouro em 1888, na Exposição de Vinhos Portugueses, em Berlim, e na Exposição Universal de Barcelona.
Além de ser conhecida por «Periquita», a casta Castelão é ainda conhecida por outra designações, entre elas João de Santarém, sobretudo na região do Ribatejo.
Esta sobreposição de nomes acontece com várias outras castas vinícolas mas, para melhor as conhecer e utilizar, é também importante o consenso sobre a sua designação.

Uma tradição que resiste ao tempo e ao urbanismo

O cultivo da vinha é, desde há muito, uma tradição na península de Setúbal. Em entrevista ao Feiras de Sabores, o presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS),  Eng. Henrique Soares,  esclarece que «desde 1907 que a região viu a sua aptidão para a produção de vinhos de qualidade ser reconhecida e protegida, o que a torna a segunda mais antiga região produtora do País, através da criação da Região Demarcada do Moscatel de Setúbal.»  
O Moscatel de Setúbal é, sem dúvida, um emblema da região, mas aqui se produzem também algumas das mais prestigiadas marcas de vinho tinto nacionais. E, entre estas, a casta Castelão ocupa, como já vimos, um lugar dominante. A produção está a cargo de produtores tão emblemáticos como a Casa Ermelinda Freitas, a Bacalhôa, a Herdade do Espirra ou as Adegas de Pegões, Fernão Pó ou Palmela. Sem esquecer, claro, a centenária José Maria da Fonseca. 
Henrique Soares acrescenta ainda que «após a integração na União Europeia (1986), a região viu a a sua particular aptidão para a produção de vinhos de qualidade ser alargada e protegida, com a criação da Denominação de Origem Palmela (no caso dos tintos pelo menos dois terços das uvas têm que ser da casta castelão para o vinho poder ser certificado como Palmela tinto)  e da Indicação Geográfica Vinhos Regionais da Península de Setúbal que passou a coincidir com o nome da região PENÍNSULA DE SETÚBAL.»
Desde então, a evolução da região tem sido notável, tanto a nível da produção de vinhos como da sua certificação. 34 milhões de litros produzidos em 2018, sendo que uma média de 70% do vinho produzido é certificado, sob as Denominações de Origem Moscatel de Setúbal, Moscatel Roxo de Setúbal e Palmela, ou como Vinhos regionais da Península de Setúbal. 
Outro dado notável assinalado pelo Presidente da CVRPS é que «o número de produtores de vinhos certificados também tem vindo sempre em crescendo, sendo atualmente de 125.»  
Quanto à ameaça imobiliária que tem erradicado a vinha em outras áreas perto da capital, a CVRPS minimiza a sua relevância: «Os parques industriais e o imobiliário “convivem” com a vinha e por vezes têm expulsado algumas áreas, mas continua a existir muita terra com aptidão e disponibilidade para o cultivo da vinha. É o mercado que dita as suas regras nesta matéria.»
E, de facto, o mercado tem mostrado grande abertura ao vinho produzido em Setúbal: em 2018, os vinhos tintos de Setúbal, que têm a Castelão como casta dominante, atingiram um volume de venda intra e extra comunitário de mais de quatro milhões de litros. Números que equivalem a cerca de 16 milhões de euros.
Os dados são do Instituto Nacional de Estatística, ainda preliminares, cobrem os meses de janeiro a novembro, e foram fornecidos ao Feiras de Sabores pela CVRPS.